Ansiedade, depressão ou euforia exagerada são vistas frequentemente no Final de Ano.
Existem dois tipos diferentes de pessoas em relação a estas festas. As que gostam e as que não gostam. Mas as pessoas raramente são indiferentes a estas datas.
Como sobreviver aos finais de ano?
Geralmente, estamos acostumados a organizar o tempo e a não prestar muita atenção na sua passagem.
No Final de Ano acontece o seguinte:
1) Rompe-se a rotina da organização do tempo.
2) Ocorrem encontros desejados e indesejados.
3) Nos vemos diante de um período de passagem, de transição.
O passado se infiltra novamente no presente: Lembramos dos que não mais aqui estão e assim como surgem as saudades surgem também os fantasmas do passado.
No final de ano temos a sensação de fim de ciclo. O sujeito repassa a experiência passada no período como se tentasse ser proprietário legítimo daquilo que passou. Como o aluno que lê novamente a lição para assimilá-la. Paramos temporariamente de experimentar e passamos a narrar as experiências passadas. Nesta narrativa podemos assumir atitudes pré-fabricadas, para nos defender da angústia ocasionada. Estas atitudes protegem o individuo de se envolver e experimentar o encontro com os outros nas celebrações de final de ano. São falsas experiências que funcionam como escudos de proteção contra os sentimentos que possam aflorar nestas ocasiões. Entre estas atitudes temos:
A atitude histérica: Se destaca a fofoca. Em vez de o sujeito viver a sua vida, narra (muitas vezes satiricamente) a experiência do outro. O outro experimenta pelo sujeito. A pessoa usa o mecanismo da externalização. Externaliza sua vida. Torna-se um parasita da experiência do outro. Em geral o alvo da fofoca é aquele que está ausente.
A atitude de expert: São excluídos os que não têm conhecimento de um tema. O sujeito de vangloria de conhecimentos sobre gastronomia, enologia, viagens, cultura, bens adquiridos. Sente-se possuidor de um saber diferenciado, diferente dos outros mortais.
Descrevem detalhes sobre o que conhecem excluindo os não iniciados. Apenas aparentam compartilhar do contato com os outros.
A atitude de planejador: Estes fogem para o trabalho. Para não sentir a experiência planejam, organizam. Preocupam-se com os cartões, presentes, filantropias, organização do cardápio. Reduzem a experiência a um conjunto de tarefas. Quem não participa nas tarefas, atrapalha. Estas pessoas se ocupam em dobro no final de ano. Tendem a ficar cansadas. Sacrificam-se e podem se irritar com os demais que não entram no mesmo ritmo. Na celebração fiscalizam se tudo está de acordo com o planejado. Agindo freneticamente evitam sentir. Fogem para a ação.
Nestas ocasiões percebe-se que o indivíduo evita recordar. Por quê?
1) Lembramos criticamente dos outros.
2) Transformamos lembrança em apenas descrever.
3) Repetimos sempre as mesmas atitudes ao substituirmos lembrar por fazer.
Mas existem algumas táticas para fugir do desprazer, da angústia.
Como fazer do modo certo? Para isso é preciso inserir-se na experiência. Elaborar os sentimentos. Valorizar as próprias crenças, símbolos e rituais. Buscar ver o valor da experiência passada e aprender a rir de coisas engraçadas do passado.
A vida adulta no trás experiência. Tivemos em geral uma longa trajetória para adquirir conhecimentos e bens. O tempo que resta pode parecer demasiadamente curto. Os dias passam rápido demais. Caminho de ida sempre parece mais longo que o de volta. É por isso que o tempo parece passar mais lento para as crianças. Ao apenas voltar ao passado se está sempre percorrendo este caminho mais longo e temos a falsa impressão de que o tempo anda mais devagar.
Primeira regra de sobrevivência: Tornar crítica a consciência da própria loucura. Trágica ou cômica não importa. A experiência deve ser digna de ser narrada.
Não adianta tentar fugir, tentar não dar importância ao final de ano. Ele nos pega sem percebermos. De nada adiantam os adiamentos, evitações, ansiedades. Notícias chegam, nos chamam. Somos obrigados a assumir.
Ficamos num estado de maior sensibilidade, de alerta. Isto nos torna predispostos a um estado de pânico difuso, medo com objeto, medo do futuro.
Uma maior irritabilidade pode predispor às explosões e tomadas de decisões impulsivas ou impensadas. Ou sobrevém o tédio que consiste em uma fuga para fora da cena. O indivíduo fica como se fosse um estranho diante da felicidade. Nada tem graça, tudo é repetitivo. A felicidade deve estar em outro lugar. Se chegar neste outro lugar parece que também lá ela não se encontra. O pânico e o tédio nos desorientam. O tédio pode descambar para franca melancolia. O melancólico acredita que percebe as coisas como realmente são. Diz que presentes são apenas comércio. Ou que as pessoas se procuram meramente como manobra social ou fazem caridade somente como alivio para culpa.
Segunda regra de sobrevivência : Desconfiar dos poderes da contabilidade. Não transformar o prazer ou desprazer em números.
Muitas vezes percebemos a Visão Contabilista no Final de Ano. O Contabilista faz balanços do ano que passou e planejamento de metas para o próximo. Assim agindo transformamos experiências em números. Contabilizamos débitos ou créditos. O Contabilista então bebe ou come em excesso para comemorar as vitórias (saldos positivos) ou derrotas (débitos no vermelho). Com um agravante: A comparação do próprio balanço com o alheio. Nesta comparação pode não mais valorizar suas conquistas e considerar melhor “a grama do jardim do vizinho”.
Esta comparação em geral acontece com parentes e amigos. Quando feliz passamos a comemorar o destino comum ou quando derrotados encontrar no outro a culpa por nossos próprios fracassos. Como a causa de alguém estar mal consistisse no outro estar bem. A culpa sempre tem esta dupla vertente. É própria ou alheia. Acentua-se no quase. Quase atingi meu desejo, é comum pensar. O outro me privou do pouco que faltava. Esta acusação nos afasta e isola e as vezes há muito tempo não encontramos esta outra pessoa a qual se acusa.
Terceira regra da sobrevivência: Não fazer desejos caber em metas.
Temos um desejo que é um horizonte semi-indeterminado de aspirações e uma meta que se torna uma obrigação compulsória. Esta meta é estipulada sem ter relação com o desejo original. É destinada ao fracasso. Os banquetes se tornam momentos de comemoração e remorso. Muitos ficam excluídos: Os não convidados e os que já se foram. Uns se tornam futuros inimigos, outros são os fantasmas que retornam. Acentuam a culpa.
Quarta regra de sobrevivência: leve os rituais a sério.
Quantas vezes procuramos nos divertir porque para os outros é importante. Tornamo-nos passivos diante da pressão social. Desta maneira mantemos a crença do outro em nós. Não vivemos a própria crença. Não nos engajamos de alma nos rituais, mas terminamos acreditando. Acreditamos sem nos dar o direito de acreditar. Perdemos a posse das próprias crenças.
Quantas vezes procuramos nos divertir porque para os outros é importante. Tornamo-nos passivos diante da pressão social. Desta maneira mantemos a crença do outro em nós. Não vivemos a própria crença. Não nos engajamos de alma nos rituais, mas terminamos acreditando. Acreditamos sem nos dar o direito de acreditar. Perdemos a posse das próprias crenças.
O melhor plano para o próximo ano e viver o próximo ano. O contabilista faz promessas de ano novo que fracassam logo. A liberdade implica em livre arbítrio. No Novo Ano poderemos exercer o que somos livremente ou nossa doença nos impedirá? Nas férias em vez de meramente resolver assuntos pendentes, há uma ideia de renovar, renascer.
Momentos de passagem são momentos de desequilíbrio. Na transposição deles rememoramos. Este retorno das memórias desperta estados emocionais. Diante destes estados temos um ponto de transição. Ficamos com a liberdade ou submetemo-nos à coerção social. Põem-se em jogo forças e movimentos antagônicos de unir e desunir. Confraternizar e permanecer em solidão. A festa assinala uma união e um destino coletivo. Mas não acreditamos no destino coletivo que a festa sugere. Sabemos que o destino de cada um é solitário.
Quinta regra de sobrevivência: Guardar sábados e festas.
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