segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Significado dos Sonhos

Sonhos segundo a psicanálise constituem um caminho mais curto ao inconsciente. Através deles percebe-se com mais nitidez os desejos e os conflitos de uma pessoa. Portanto, o sonho tem significados. Estes significados estão escondidos, disfarçados nas cenas fantásticas e aparentemente absurdas. É mais fácil se perceber o significado do sonho quando conhecemos a intimidade da pessoa. Para o psiquiatra que acompanha um paciente semana após semanas é mais fácil ao ouvir o relato de um sonho decifrar seu significado. Está capacidade de decifrar o sonho é mais difícil quando não conhecemos a pessoa, neste caso tentamos inferi-lo a partir da presença de símbolos universais. Os sonhos são ricos em símbolos. Deste modo podem aparecer animais, água, pessoas já falecidas, números, caminhos, quedas, furtos, sexo, brinquedos, alimentos, etc.
O sonho tem uma função fisiológica de preservar o sono. Quando a situação vivida durante um sonho se aproxima demais das angústias atuais de uma pessoa dizemos que é um pesadelo e em geral precipita o  despertar noturno.
Com o progresso do tratamento o paciente aprende a decodificar os próprios sonhos. O conhecimento obtido a partir desta decodificação somado a outros meios de auto conhecimento é utilizado diante das tomadas de decisão, resolução de conflitos e impasses. A pessoa passa a reconhecer o que busca e concentra suas forças para obter justa gratificação.

O Efeito Terapêutico das Palavras

Cena da série do HBO "In Treatment"
A palavra certa dita na hora certa é um grande remédio. Não menosprezo a química dos laboratórios. Eles tem seu papel. Mas o que me dá prazer profissional é quando através de minhas atitudes e principalmente palavras  consigo alterar a "química" do cérebro dos meus pacientes. Durante a sessão de terapia noto que a pessoa atinge a descontração e passa a ver o mundo mais colorido. Aí eu penso: "Foi para isto que me formei". E vou para casa com a sensação de dever cumprido. 

Amizade

Nos momentos de alegria, no compartilhar conversas leves, sem compromisso, sem medo de crítica. Mas principalmente nas horas de angústia e dor. Como é bom ter amigos.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sobre a culpa.

Na minha atividade de psiquiatra por quase três décadas observo que um dos sentimentos mais daninhos que tem os seres humanos é o sentimento de culpa. Exceto os psicopatas que não tem a percepção deste sentimento, as demais pessoas já o experimentaram. É oriunda das identificações com pessoas importantes do passado e de recriminações recebidas. A culpa excessiva se opões ao prazer e à felicidade. Cada passo que o indivíduo dá em direção ao crescimento (pessoal, material, cultural) ela se manifesta como se para dizer: "você está fazendo algo errado" ou "você não merece viver bem". O prazer (inclusive o sexual), o sucesso e a riqueza são altamente geradores de culpa. A tal ponto que muitos evitam estes aspectos para não sentir a dor do remorso. Pela ótica da culpa todos deveriam se tornar monges que se auto penitenciam com chibatas como aquele do filme "Código Da Vinci".
A culpa destrói a iniciativa e a criatividade, afasta as pessoas de uma convivência produtiva e prazerosa. Esta acentuada nos deprimidos e nestes é um dos fatores que determina a perpetuação e agravamento desde quadro. Tem gente que se acusa antes de que os outros o acusem. Faz o que chamamos auto acusação. Chegam a admitir para outros o que consideram seus erros. Talvez na ingênua ilusão de que quem confessa os seus crimes não mereça castigo.
Dica: Seja seu advogado de defesa.

Será preciso perdoar?

Tenho me deparado com esta questão que é título desta postagem. Se alguém sofreu algum tipo de mau trato quando era criança deverá perdoar o pai, a mãe ou outras pessoas que ocasionaram a ferida traumática para então poder esquecer e ser feliz? Inicialmente pensava que sim, que o perdão era a condição sine qua non para obter a elaboração e esquecer o mau trato
sofrido. Porém recentemente tenho me questionado sobre isso e estou mais propenso a crer que se elaborada e compreendida a situação traumática, perdoar ou não passa a ser menos importante. Alguns crimes não merecem perdão. Maldade é cometer atos que prejudicam os outros. Deixar de perdoar não é maldade. Pode ser que a dor sofrida tenha sido tão intensa que seja quase impossível perdoar. Neste caso, exigir que além de sofrer, a pessoa ofereça o perdão é pedir demais. Muitas dessas situações são irreversíveis, os progenitores envolvidos podem até ter morrido. A pessoa se sente culpada por não amar o pai ou a mãe. Lembre-se que até os 10 mandamentos não mandam amar pai e mãe, mas "honrar pai e mãe". Portanto, a melhor maneira é conversar sobre o assunto com pessoas esclarecidas e não preconceituosas, mudar os conceitos sobre o passado, dar mais importância aos acontecimentos bons que possam ter ocorrido do que aos fatos negativos. Questionar as ideias e argumentos antigos também pode ser válido. Algumas pessoas, como no antigo seriado de TV "Túnel do Tempo", quando voltam ao passado só vão para situações ruins. Esquecer totalmente pode ser impossível, mas perder menos tempo relembrando é útil. Algumas vezes as situações traumáticas do passado repetem-se no presente com outros atores. É importante que a pessoa agora não se comporte com a criança passiva e indefesa que foi, mas defenda suas convicções com firmeza, como um adulto capaz. Ou seja, se os fantasmas do passado encarnarem em novos personagens, agora você pode ser capaz de exorciza-los. Não concorde com ideias que você não acredita, não tolere preconceitos contra você e defenda suas verdades, por mais que você goste de quem manifesta atitudes que você considera erradas.

Inveja: Um sentimento que só os outros tem. Parte I - A Reflexão.

Mas os homens também tem!
O título evidentemente é uma provocação. Mas que sentimento é esse que ninguém gosta de admitir que sente, porém parece que o colega tem, o vizinho tem e um grupo de pessoas "de olho gordo" tem. As pessoas acreditam que a inveja libera uma energia negativa invisível que faz coisas ruins acontecerem para suas "vítimas". Muitos deixam de morar onde gostariam, andar no carro que podem comprar com seu merecido dinheiro ou vestir as roupas que acham bonitas simplesmente para não provocar a inveja. Inveja naturalmente que "só existe nos outros".
No meu trabalho como psiquiatra, assim como quando olho para mim mesmo e para a pessoas que me estão próximas percebo que este é um sentimento bastante banal e até simples, mas como se tem dificuldade de lidar com ele. A inveja ao contrário do ciúmes é um sentimento que se estabelece entre apenas duas pessoas (nos ciúmes precisa haver um triângulo). São invejados desde os objetos materiais que os outros tem até as habilidades, dons e principalmente o carisma alheio. Uma vez percebi que um cidadão muito rico, de vida que poderia ser vista como invejável, sentia inveja da minha capacidade de escutar e cuidar dos outros como médico. Talvez ele não tivesse ideia de tudo o que passei para chegar até esta capacidade e que se pudesse viver na minha pele por um dia apenas desejasse voltar correndo para os seus afazeres. O indivíduo sofre por não ter ou por se sentir incompetente para obter algo que seu semelhante tem. Começa na mais tenra idade e é considerado um sentimento normal. A princípio todos deveriam ter e aprender a administrá-lo. Entretanto, por que como no título desta postagem "só os outros tem"? Uma das coisas que contribui para isso é que assim como o homem primeiro estudou as estrelas distantes e só mais recentemente estudou a psicologia, tendemos mais a olhar para fora, para a vida dos outros do que para nós mesmos. As vezes é doloroso constatar um sentimento ruim em si. É muito mais fácil ver os outros. Os megalomaníacos que se consideram melhor que os outros hão de dizer: "Eu não tenho inveja de ninguém, sou melhor que eles, portanto eles é que tem inveja de mim". Os mais paranóicos se resguardam: "Acho melhor me cuidar, pois podem querer me agredir pelo que tenho de bom".
Quando estava em treinamento, repleto mais de boas intenções para ajudar do que de vivência, disse a uma jovem paciente que o que ela estava sentindo era inveja. Na próxima consulta ela voltou furiosa. "Me chamaste de invejosa, fiquei muito ofendida". A gente aprende com os erros e a partir de então passei a ter cuidado de tratar isso com os pacientes.
O pior invejoso é o que não sabe que é invejoso. Isto inclui todos aqueles que dizem não sentir inveja de ninguém. A inveja inconsciente costuma gerar falas e comportamentos agressivos contra o alvo da inveja. O invejoso passa a denegrir, desqualificar e menosprezar os atributos do outro que lhe conferem algum tipo de destaque. Muitas vezes a pessoa não percebe as agressões recebidas, pois em geral são sutis, como desqualificar ou levantar dúvida sobre uma aquisição ou qualidade dos atributos do outro. Usa também de ironias. Mas é comum o alvo, depois de conversar com o invejoso, sentir-se angustiado ou depressivo. Por este motivo pode ficar mais distraido e susceptível a acidentes, erros, etc. Quando em posição de poder o invejoso pode boicotar a ascensão do outro.
Por este motivo o "olho grande" é perigoso, não por emanações invisíveis e paranormais.
To be continued......

Inveja. Parte 2: Administrando.

Falo em administrar a inveja, pois não há interesse, nem é possível suprimi-la. Trata-se de um sentimento humano normal. Mas faz-se importante que tenhamos controle sobre ela. O problema acontece quando a inveja assume o controle do nosso comportamento. A pessoa possuída por este sentimento fala ou age inconscientemente movida por ele. Desta maneira passa a desqualificar com palavras aquelas pessoas que exibem alguma forma de vitória, conquista, aquisição, talento, avanço, alegria. Ataca as coisas positivas que os outros demonstrem estar tendo. Demonstra prazer quando denigre o outro, pois nesse momento nivela "por baixo". Depois, agem impulsivamente para compensar o sentimento de inferioridade que a inveja provoca. Desta maneira compram compulsivamente aquilo que não necessitam, mas que serve apenas como um lenitivo, para ostentar e demonstrar superioridade. Desta maneira tenta "nivelar por cima", mas de uma forma pouco eficiente, pois tais aquisições logo deixam de servir para manter a auto estima e o ciclo se repete. 

Dez mandamentos  para administrar a inveja:

1) Aceite e reconheça este sentimento em si. Procure pistas de sua existência, disfarces que ele assume. Por exemplo: a fofoca, a compra compulsiva, a ansiedade quando alguém conta alguma conquista.

2) Aceite que ter este sentimento não desqualifica ninguém, pelo contrário, abre a possibilidade de controlá-lo. É melhor ter consciência, mesmo que no início cause algum sofrimento. Desiluda-se consigo mesmo. Você não precisa ser um super homem nem uma super mulher.

3) Dê-se o direito de não precisar ser o melhor em tudo. Nem o melhor do mundo. Tem muita gente no mundo. É difícil estar sempre vencendo. Com as derrotas também se aprende. Talvez um dia você tenha sido o melhor do mundo para a sua mãe, ou sentiu-se assim. Mas foi para a escola e encontrou dúzias de outras crianças, algumas com aptidões inatas melhores que as suas.

4) Procure em si mesmo seus pontos fortes e os valorize. É mais fácil fazer muito bem aquilo para o que você for mais talhado e de que gosta.

5) Procure se comparar com você mesmo em vez de com os outros. Observe se você evoluiu com o passar do tempo. Tente vencer sua própria "marca".

6) Pense que muito provavelmente os dons e conquistas dos outros foram obtidos através de muito esforço, não" caíram do céu". Portanto, se você se esforçar bastante terá chance de ter suas próprias conquistas. Não fique esperando, vá a luta.  Reclame menos da sorte e aja mais.

7) A maioria das pessoas tem potencialidades semelhantes.  O que as diferencia é que umas acreditam nelas mesmas e outras não.  Na inveja a pessoa se vê muito desnivelada com as outras e não acredita que possa chegar perto delas.

8) Não faça críticas sobre o que os outros conquistaram. A inveja se revela em frases do tipo: "Seu carro é bonito, pena que não é automático".  Tais comentários são "um banho de água fria" no entusiasmo do outro.

9) Uma das coisas que mais provoca inveja é a capacidade de alguém ajudar. Portanto, se for ajudado por outra pessoa, agradeça. Não fique se sentindo inferior por isso Se ela está podendo lhe ajudar é porque alguém a ajudou. Provavelmente, você estando bem, no futuro também vai poder ajudar os outros.

10) Aprenda a desfrutar das conquistas de seus amigos. Fique feliz por ter ao seu lado pessoas fortes e que progridem. Manifeste seu orgulho com a vitórias das pessoas que lhe são próximas. No futuro poderão ser elas a se orgulharem das suas. 

Terapia e Cultura

Antevéspera de um clássico entre Grêmio e Internacional uma emissora de rádio de Porto Alegre colocou frente a frente os técnicos Renato Portaluppi e Paulo Roberto Falcão. Chamou-me a atenção durante o debate que o técnico Falcão disse que faz análise há 16 anos e isso o ajuda a conhecer e lidar com as pessoas. 
Desta manifestação podemos pensar algumas coisas.  

Em primeiro lugar que terapia não se presta somente para tratar doenças mentais.  Falcão esta longe do que podemos considerar uma pessoa doente. Deve ter suas preocupações, ansiedades e problemas como a maioria de nós, mas é bem sucedido, comunica-se bem, mantém seu trabalho, tem uma família e observo que em geral tem uma atitude cordial ao tratar os outros.

Pensar que terapia somente serve para tratar doentes é uma visão preconceituosa e antiquada. Quase como pensar que freqüentar academia é coisa para pessoas acima do peso e fora de forma. Mas infelizmente estes preconceitos se disseminam como uma praga daninha e prejudicam as pessoas privando-as de obter um avanço cultural da sociedade.

Em segundo lugar o treinador fala que a terapia o ajuda a compreender as pessoas. Sabemos que tirando as máscaras que nos diferenciam, que chamamos de personalidade, no fundo, na essência, nós humanos somos muito parecidos. Portanto, é razoável pensar que se eu compreender a mim vou compreender melhor os outros e que se eu compreender melhor os outros tenho melhores chances de ter boas relações com eles.

Ir a um psiquiatra ou psicólogo uma ou duas vezes por semana, permitir-se ter estes momentos para si, valorizar e procurar tirar o melhor destes encontros não é uma questão de saúde, mas de cultura

Pessoas que tem menos cultura dispõem-se menos à terapia. Faltam às sessões, não valorizam, abandonam com facilidade. Só pensam em resultado imediato. Argumentam que não tem tempo, não tem dinheiro e que não são doentes. Não toleram frustração e um projeto de longo prazo não é algo que tenham capacidade de fazer. Outros temem deparar-se com eles mesmos, temem ser recriminados como talvez tenham sido por pessoas de autoridade na sua infância. E tem o grupo dos competitivos para os quais ser paciente é um sinal de estar perdendo e em situação de inferioridade, um sinal de fraqueza. Então procuram vencer os argumentos do terapeuta, desqualificar as suas ideias. Para estes a terapia deve atender outros moldes. Terapias mais didáticas e educativas e talvez terapias breves em momentos de crises e associadas com medicamentos.

Por fim, fazer análise é perigoso. Ajuda a pensar. Pessoas que pensam são menos utilizadas como massa de manobra. Quem pensa acaba se valorizando, descobrindo suas virtudes e capacidades. Quem pensa tende a se tornar mais livre e independente. Livre inclusive para decidir fazer terapia sem pensar que vai as sessões porque é "dependente" (outro preconceito), muitas vezes contrariando a visão de parentes ou amigos "bem intencionados" (de que o sujeito continue igual e não perceba certas coisas).

Desfrutar deste encontro humano proporcionado pela terapia analítica também é prazeroso. Muitos vão procurando os defeitos e surpreendem-se quando descobrem em si um enorme potencial, outros já conhecem seu potencial e não querem mais desperdiça-lo atendendo interesses que não são seus. 
Concluindo, o título desta postagem deveria ser. Terapia é cultura.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Aprovação

As crianças nascem e crescem. Ouvem não faça isso, não faça aquilo. Os pais não tem como não criticar. Estão bem intencionados(outro dia escrevo sobre meu temor às boas intenções). Querem o melhor para seus filhos, pois são vistos como uma extensão deles mesmos. Exigem dos filhos o que exigiram deles próprios e muitas vezes não realizaram. Mas os filhos precisam desenvolver autoconfiança a partir de se sentirem aprovados. A pessoa cresce e a crítica que recebia dos pais passa a fazer consigo mesma. Sai pela vida procurando ser aprovada. É impossível agradar a todos. Mas aquele que foi muito criticado passa a buscar ser aprovado. Isto exige um esforço. Nunca falhar, ser bom, agradar. Todo este esforço pode aniquilar a identidade. Acabar com o Eu. Passar a ser o que os outros esperam que seja. Viver o desejo dos outros. Na escola ser um bom aluno, na vida receber aprovações. Caso contrário viver a culpa. Se a pessoa não aprovar a si mesma, fica dependente da aprovação dos outros. Mas quem disse que os outros estão certos? Se o senso comum fosse sempre a verdade, o mundo não mudaria. Não haveria revolução nem evoluçao, mas estagnação. Se as pessoas não acreditassem nelas mesmas ainda viveríamos na Idade Média. Aprove a si mesmo, a não ser que o argumento contrário seja muito bom.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O mundo girando em meu umbigo

Tem gente que age bem assim. O mundo gira em seu umbigo. São o centro do universo e parecem ter sido sempre o bebezinho da mamãe. Os outros que se danem, não importam, desde que façam o que no momento der vontade. Assim se comprometer hoje e esquecer amanhã é algo perfeitamente normal. Portanto faltam e atrasam compromissos sem avisar, não honram as dívidas, não se comprometem com nada. No Brasil ainda há uma cultura de valorizar a malandragem, o atraso e a irresponsabilidade. Dizem que agindo assim se é esperrrrto! Isso mesmo, com erre arrastado, sotaque carioca como o do memorável Gerson da não menos memorável Seleção de 70. Mas não tem a mesma simpatia por estas atitudes quem porventura é vitima de algum narcisista falcatrua destes. Semeiam raiva, rancor e revolta entre seus pares. Um dia recebem o troco e colhem o que plantaram. Ninguém engana a todos num mesmo momento nem a mesma pessoa o tempo todo disse se não me falha a memória algum ex-presidente americano. Os narcisos vão deixando um rastro de ressentimento por onde quer que passem. Tem que ser muito masoquista para suportar ser desconsiderado.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A escuta total

Chamo escuta total a capacidade que desenvolvemos de escutar e continuar observando sinais emitidos pelos outros mesmo quando estamos falando. Em geral, nas relações humanas precisamos dar uma resposta ao que nos dizem. Se ficarmos somente escutando vamos provocar uma sensação ruim no interlocutor. Ele precisa receber esta resposta. Como a resposta é voltada para ele, falamos não para nós mesmos, mas para o outro. Quando falamos para o outro temos dois objetivos. Primeiro mostrar que compreendemos o que esta querendo dizer. Segundo mostramos como nos posicionamos em relação ao assunto apresentado. Pessoas não falam apenas por palavras e frases consciensiosamente organizadas. Falam por olhares, gestos, sons entre as frases e pelos períodos de silêncio. Escuta total contempla tudo isso e deveria se chamar Atenção Total ao outro. Isto é trabalho e despende energia. A resposta que vamos oferecer só atende as necessidades de ser compreendido do interlocutor se na sua construção considerarmos todas estas mensagens verbais e não verbais emitidas. As vezes, a pessoa fala de um assunto, mas gostaria de falar de outro. A capacidade de perceber estas e outras situações está em prestar atenção aos detalhes que contradizem o que as palavras falam.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O que é esta coisa chamada AMOR?

Na música de Cole Porter "What Is This Thing Called Love" ressalta-se o poder do amor de combater a solidão e aproximar os amantes. Este efeito só ocorre quando o amor é correspondido? E aqueles que amam, são mal tratados pelo objeto de seu amor e mesmo assim continuam amando. Será isto amor? Parece ser mais fácil conceituar o que não é o amor do que o que é o amor. Mas vou tentar assim mesmo. Ao apossar-me do assunto lembro do caráter possessivo de alguns que confundem poder com amor. Será que o amor não é um pouco a soma de tudo isto, O perdão, a posse, a aproximação. Mas tem mais.
Existe a necessidade de amar alguém para ter a ilusão de não estar só. O sentir-se amando possibilita uma ilusão de estar amalgamado, mesclado ou em fusão com a outra pessoa. É quase uma experiência intra uterina de fusão com o corpo e o espírito da mãe.
O amor ao outro pode se opor ao amor a si mesmo. Alguém com baixa auto estima pode ter elevada estima por outrem. Entretanto essa estima elevada somente perdura enquanto este outrem parecer não lhe pertencer completamente, pois a partir do momento em que a outra pessoa passar a ser considerada completamente sua, ela passará a ter a importância igual àquela que dedica a tudo o que é seu(baixa). Passará a tratar o outro como trata a si mesmo.
O amor romântico ou sensual é o que mais nos anima. As vezes começa como forte paixão recíproca que pela intensidade do calor gerado solda duas pessoas para toda a vida. Noutras, quando baixa a labareda se percebem as diferenças e as incompatibilidades. O sexo não depende do amor. É bom mesmo quando é ruim, me disse brincando uma paciente. Mas com o amor ganha em intensidade e atinge as dimensões do êxtase. O sexo fortalece o apego entre as pessoas. Novamente a ilusão de dois serem de novo uma unidade. O sentir-se amado age como um verdadeiro antidepressivo. Protege durante o dia, favorece o sono de noite. Já existem estudos que mostram a liberação de neurotranmissores no cérebro quando estes sentimentos são experimentados.
EM CONSTRUÇÃO....AGUARDE

Amor Materno e Depressão

Tenho encontrado não a falta de amor, mas a incapacidade de a mãe expressar esse amor para os filhos por estar ela mesma deprimida como uma causa da depressão ser transmitida dela para os filhos e assim perpetuando-se geração após geração. A depressão da mãe determina que ela se volte para si, tenha menos energia dirigida para o mundo e menor capacidade de cuidar de outras pessoas. Isto determina uma falha na capacidade de sintonizar com as necessidades dos filhos e perceber as necessidades deles por estímulo e demonstração de afeto fundamentais para o desenvolvimento da auto estima.

sábado, 14 de maio de 2011

30 anos de Psiquiatria

Formei-me em 1981, portanto, este ano completo trinta anos de Psiquiatria.. Mas durante a faculdade fiz estágio e trabalhava com psiquiatria. Fazia plantões em hospitais e clínicas. Dormia duas vezes por semana num hospital psiquiátrico e acordava para atender as crises dos pacientes internados ou com os gritos de alguém chegando de ambulância num surto psicótico. Serviu para perder o medo da doença mental. Foi um tipo de batismo. Pura adrenalina. Com estas experiências antes de me formar posso somar mais quatro anos de convívio com pessoas com transtornos emocionais. Depois veio a formatura e a pós graduação, os pacientes que buscavam terapia, atendimento mais sofisticado, quadros "mais leves", mas mais desafiadores e as supervisões e a análise pessoal que funcionavam como um GPS em meio ao caos. No começo, entusiasmado, acreditava que ia ensinar muito aos pacientes, mas hoje noto que aprendi e ainda aprendo bastante com cada um deles. Talvez muitos nem percebam e digam que aprenderam comigo. São bondosos e me ajudam a tratá-los. Aprendi por exemplo que as pessoas são ao mesmo tempo fáceis e difíceis. Depende da face que nos propusermos a ver. Aprendi também que no universo mental, as vezes, dois mais dois é cinco e pau é pedra. Ai de quem discordar!

O Desejo de Cura


As vezes está escondido, disfarçado em outra coisa, mas se procurarmos bem vamos achar....o desejo de ficar curado. Ele é o mais importante aliado da dupla psiquiatra-paciente. Não se deve menosprezar a sua força.

Terapia ou medicamentos?

Para alguns falar do problema, ser escutado por um psiquiatra, ouvir dele uma interpretação do que acontece e obter uma nova maneira de encarar os fatos pode ser o melhor remédio. O paciente chega angustiado, preocupado ou depressivo e sai da sessão mais tranquilo, esperançoso e alegre. Sempre que posso trabalho assim, contando com o efeito terapêutico deste tipo especial de relação humana. Contudo, existem situações em que, pela sua complexidade, a escuta e a compreensão não são capazes per se de promoverem o esperado alívio. Nestes casos uma medicação pode ser útil. Quando constatada esta ausência de resposta às palavras, os psicofarmacos estão indicados. Ninguém sente ansiedade ou depressão porque quer, portanto, quando está neste estado não consegue controlar seus sentimentos e pensamentos. Se conseguisse esse controle nem precisaria de tratamento. Não precisariam existir psiquiatras, psicólogos, terapeutas, etc. Bastaria um livro de auto ajuda, seguir a risca os conselhos inteligentes e tudo estaria resolvido. Mas na prática, no "chão do consultório", ninguém muda "por decreto".

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Agora é preciso partir para a ação.

Tem gente que já sabe tudo sobre si. Fez terapia, regressão, tomou remédio, rezou na igreja. E já sabe tudo sobre as causas de seu mal. Sou assim porque meu pai...., minha mãe..., riram de mim na escola, é um problema genético, etc. São meras intelectualizações que se repetem anos a fio. Obsessões, TOCs, ruminações, masturbações mentais. Para com tudo isto tchê! Não adianta só ficar pensando, andando em círculos. Acredita em ti. Bota em prática o que estás cansado de saber. Aja. Estudar, trabalhar, ganhar o pão, ir na academia e nas folgas namorar. Chega de desculpas, pô. Tudo isso disse um rapaz que conheço falando consigo mesmo. E a partir daí começou a mudar. Acho que desceu do pedestal de nobreza e foi para a luta como todo o mortal.