Antevéspera de um clássico entre Grêmio e Internacional uma emissora de rádio de Porto Alegre colocou frente a frente os técnicos Renato Portaluppi e Paulo Roberto Falcão. Chamou-me a atenção durante o debate que o técnico Falcão disse que faz análise há 16 anos e isso o ajuda a conhecer e lidar com as pessoas.
Desta manifestação podemos pensar algumas coisas.
Em primeiro lugar que terapia não se presta somente para tratar doenças mentais. Falcão esta longe do que podemos considerar uma pessoa doente. Deve ter suas preocupações, ansiedades e problemas como a maioria de nós, mas é bem sucedido, comunica-se bem, mantém seu trabalho, tem uma família e observo que em geral tem uma atitude cordial ao tratar os outros.
Pensar que terapia somente serve para tratar doentes é uma visão preconceituosa e antiquada. Quase como pensar que freqüentar academia é coisa para pessoas acima do peso e fora de forma. Mas infelizmente estes preconceitos se disseminam como uma praga daninha e prejudicam as pessoas privando-as de obter um avanço cultural da sociedade.
Em segundo lugar o treinador fala que a terapia o ajuda a compreender as pessoas. Sabemos que tirando as máscaras que nos diferenciam, que chamamos de personalidade, no fundo, na essência, nós humanos somos muito parecidos. Portanto, é razoável pensar que se eu compreender a mim vou compreender melhor os outros e que se eu compreender melhor os outros tenho melhores chances de ter boas relações com eles.
Ir a um psiquiatra ou psicólogo uma ou duas vezes por semana, permitir-se ter estes momentos para si, valorizar e procurar tirar o melhor destes encontros não é uma questão de saúde, mas de cultura.
Pessoas que tem menos cultura dispõem-se menos à terapia. Faltam às sessões, não valorizam, abandonam com facilidade. Só pensam em resultado imediato. Argumentam que não tem tempo, não tem dinheiro e que não são doentes. Não toleram frustração e um projeto de longo prazo não é algo que tenham capacidade de fazer. Outros temem deparar-se com eles mesmos, temem ser recriminados como talvez tenham sido por pessoas de autoridade na sua infância. E tem o grupo dos competitivos para os quais ser paciente é um sinal de estar perdendo e em situação de inferioridade, um sinal de fraqueza. Então procuram vencer os argumentos do terapeuta, desqualificar as suas ideias. Para estes a terapia deve atender outros moldes. Terapias mais didáticas e educativas e talvez terapias breves em momentos de crises e associadas com medicamentos.
Por fim, fazer análise é perigoso. Ajuda a pensar. Pessoas que pensam são menos utilizadas como massa de manobra. Quem pensa acaba se valorizando, descobrindo suas virtudes e capacidades. Quem pensa tende a se tornar mais livre e independente. Livre inclusive para decidir fazer terapia sem pensar que vai as sessões porque é "dependente" (outro preconceito), muitas vezes contrariando a visão de parentes ou amigos "bem intencionados" (de que o sujeito continue igual e não perceba certas coisas).
Desfrutar deste encontro humano proporcionado pela terapia analítica também é prazeroso. Muitos vão procurando os defeitos e surpreendem-se quando descobrem em si um enorme potencial, outros já conhecem seu potencial e não querem mais desperdiça-lo atendendo interesses que não são seus.
Concluindo, o título desta postagem deveria ser. Terapia é cultura.
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