quarta-feira, 7 de julho de 2010

Síndrome do Pânico

Como sofrem estes que tem síndrome do pânico. Acham que vão morrer, enlouquecer. Psiquiatra assusta mais que fantasma. Não pensam mais em nada. Só no seu medo. Nada mais importa nem interessa. Só o medo. O medo do medo. Tomografia, eletrocardiograma, ecocardiograma, ressonância magnética, endoscopia. Que legal mais um exame. Dizem que não tem nada, mas deve ter havido um erro. Tem que ter algo errado. O coração acelera, a pressão sobe, falta o ar, vem o frio e o calor. Tem que ir noutro médico. Não acharam nada. Não pode ser verdade. O derrame se aproxima, o infarto, o aneurisma e o mal súbito. E mandam o cara para o psiquiatra. Isso é médico de louco diziam. Agora dizem que até dá status. Paroxetina, Rivotril, Propanolol. Funcionam mais que escapulário para católico. Só de olhar a caixinha já aclama. E se não funcionar? Bem, ai quem sabe o problema é espiritual. Tomar uns passes, tirar as obsessões. Rezar. Mas e a fé. Onde é que está? Se agarrar em todos os santos é a regra. Difícil é confiar. Querer se curar sozinho. Ou por um passe de mágica. E o psiquiatra. Até que é um cara legal. Quem sabe algumas sessões de terapia. Falar da vida, dos problemas, do trabalho estressante.
Até que faz bem.

2 comentários:

  1. Será que essa sensação de morte iminente das crises de pânico, assim como o "tempo vazio" da depressão, não tem a ver com um alerta de que estamos muito distantes de nós mesmos? Dos nossos planos, das coisas que nos fazem sentir vivos, como se esse afastamento de algum modo matasse aquela pessoa que antes identificávamos como "eu".
    Desde a primeira vez que li este soneto do Fernando Pessoa que transcrevo abaixo(foi há pouco tempo), não consigo deixar de pensar nisso.
    E se os sintomas- que nos imobilizam - são "o almirante", que substitui nossa consciência da sensação de frustração, insatisfação e mesmo infelicidade com a nossa vida atual - o que nos levaria a mudá-la.

    MEU CORAÇÃO É UM ALMIRANTE LOUCO

    Meu coração é um almirante louco
    que abandonou a profissão do mar
    e que a vai relembrando pouco a pouco
    em casa a passear, a passear...

    No movimento (eu mesmo me desloco
    nesta cadeira, só de o imaginar)
    o mar abandonado fica em foco
    nos músculos cansados de parar.

    Há saudades nas pernas e nos braços.
    Há saudades no cérebro por fora.
    Há grandes raivas feitas de cansaços.

    Mas - esta é boa! - era do coração
    que eu falava... e onde diabo estou eu agora
    com almirante em vez de sensação?...

    Fernando Pessoa

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  2. Sem dúvida Sílvia. Os sintomas refletem todo o desamparo de ter perdido o contato com os outros e principalmente consigo mesmo. O corpo assume como se fosse um piloto automático estragado que escolhe caminhos não desejados. O corpo e a mente deixam de pertencer ao sujeito e passam a ter vida própria. Quem não tem por hábito verbalizar suas emoções (raiva, temores, tristezas, culpas, etc)num primeiro momento passa a sofrer no corpo (palpitações, tonturas, formigamento, falta de ar, diarréia)e se não receber ajuda cai na lentidão física e mental que constitui a depressão

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