terça-feira, 18 de setembro de 2012

Espreitar a vida dos outros, bisbilhotar. Torcer para que aquele de quem não gostamos esteja mal na foto. Obter informações, colecionar coisas sobre a vida alheia, principalmente do alheio que já foi nosso. A internet propicia o encontro do vouyeur com o exibicionista. Esta perseguição pode sair dos limites do racional e passar a constituir uma invasão ou até uma ameaça. Este artigo publicado na Folha de SP levanta algumas destas questões. 

11/09/2012 - 05h00

Superexposição na web estimula a ação de perseguidores virtuais

JULIANA CUNHA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Se você tem um ou uma ex, então você tem um "stalker". Se o seu ou a sua ex tem uma nova companhia, então já são dois stalkers em potencial. Some a eles paqueras, gente que não gostava de você na escola ou que gostava até demais. Todas essas pessoas e outras que você nem imagina podem estar acompanhando seus passos de maneira sistemática.
O termo "stalking" (do inglês "espreitar") passou a ser usado nos anos 1980 para se referir a fãs que perseguiam celebridades, invadindo suas casas e forçando contato.
A chamada web 3.0 --definida por Reid Hoffman, fundador do Linkedin, como uma rede com presença maciça de dados pessoais-- fez com que muita gente se transformasse em pequena celebridade de nicho só por ter um site conhecido ou muitos seguidores no Twitter.
"['A ex do meu noivo faz da minha vida um inferno', diz a fotógrafa Olivian Moioli, 32]":http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1151130-a-ex-do-meu-noivo-faz-da-minha-vida-um-inferno-afirma-fotografa.shtml
'A ex do meu noivo faz da minha vida um inferno', diz a fotógrafa Olivian Moioli, 32
Resultado: a preocupação com a perseguição migrou para a realidade de gente anônima, que anda pelas ruas sem segurança e é conhecida só por um grupo.
Mas, se o "cyberstalking" é definido como o hábito de buscar informações sobre determinada pessoa na internet, fica bem difícil separar as pessoas entre perseguidores e alvos de perseguição.
"A forma como assediamos a vida uns dos outros hoje tem tudo a ver com o processo de celebrização da sociedade. Há um impulso de consumir a vida do outro, de usá-la como entretenimento, semelhante a um filme", explica Eugênio Trivinho, professor do programa de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP.
"Se as pessoas não fossem todas stalkers, o Facebook não seria tão acessado", provoca a estudante de direito Gabriela Assis, 23.
Ela conta que, na adolescência, desenvolveu o hábito de conferir a vida dos colegas pelo Orkut. "Se gostava de um menino, queria saber se tinha namorada, o que fazia. Para isso, acompanhava as conversas do 'scrapbook' dele."
Gabriela não vê nada de errado em seu comportamento: "Apenas faço uma análise detida do que as pessoas escolheram publicar, não roubo dados de ninguém".
Há perseguidores e perseguidores. Alguns se limitam a investigar a vida de pessoas que já conhecem, outros se encantam por desconhecidos e procuram meios de se aproximar deles.
Uns mantêm suas atividades apenas no campo virtual, outros passam a frequentar os mesmos lugares de seus objetos de atenção, montando um cerco presencial.

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