UM PROJETO PARA A SAÚDE MENTAL
Há 34 anos vivo a realidade da doença mental. Hospitais psiquiátricos, clínicas particulares, unidades de psiquiatria, consultórios, ambulatórios e CAPS. Conheço todas estas instituições. Meu início na psiquiatria foi num hospital psiquiátrico como estagiário. Dentro do hospital tinha privilégios como se médico formado fosse. Podia prescrever, fazer as baixas, orientar a equipe. Neste hospital havia pessoas para quais o hospital era sua casa. Moravam lá há muitos anos e não havia nenhuma perspectiva de que pudessem sair. Ficavam sentados pelos corredores, caminhavam com olhar distante nos pátios, falavam coisas sem nexo ou riam sem motivo. Abandonados por todos organizavam-se em filas na hora da medicação. Os que entravam violentos eram colocados em celas até que se acalmassem e não oferecessem perigo aos demais.
Lembro de uma vez em que internei um sujeito com características de psicopatia (ou sociopata). Sedutor, conversa fácil, usuário de cocaína. Dias depois começaram a surgir incêndios no hospital. Pacientes acordavam com o colchão pegando fogo. Descobriu-se que o sujeito mencionado tinha este estranho hábito de ser incendiário. Uma paciente que há muitos anos não se comunicava com ninguém rapidamente voltou a agir como uma pessoa normal, tornou-se ativa, ajudou os outros pacientes, ajudou a apagar o fogo nas camas. Eu jovem estudante fiquei surpreso. Pareceu-me que ela estava curada. Pois, não é que passada a urgência do incidente, a paciente voltou novamente para seu mundo particular como se nada daquilo tivesse acontecido. Pensei então se não haveria uma forma de resgatar aquela normalidade que existia escondida em seu interior. Somente os remédios não restituíam a integridade da pessoa. Os CAPS podem resgatar a cidadania sempre que conduzirem a uma percepção de valor social pelo paciente.
Por outro lado percebi que alguns pacientes, lembro de uma menina com grave anorexia nervosa, que só melhorou quando foi hospitalizada longe de sua mãe. Então, para alguns pacientes é necessário o afastamento temporário do seu ambiente para que possam se recuperar.
Os projetos de internação psiquiátrica em hospital geral contemplam a participação da família como acompanhante e para ajudar a cuidar do mesmo. Entretanto, tenho percebido que alguns casos necessitam de afastamento e isto justifica o encaminhamento para unidades fechadas onde o paciente não baixe com acompanhante. Alguns familiares estão estressados e não contribuem para a melhora do quadro e através de atitudes e palavras até levam à piora.
Contudo os hospitais não podem voltar a serem depósitos de pessoas como no passado. As medicações modernas são melhores e facilitam a reintegração social.
Idealmente os pronto socorros deveriam ter psiquiatras de plantão ou sobreaviso e uma sala de observação
para pacientes com estados mentais alterados.
No hospital geral temos que ter muito cuidado na integração com as outras especialidade e temos unidades em que não há separação física das enfermarias clínicas e cirúrgicas. E os pacientes psiquiátricos não ficam restritos ao leito, circulam pelo hospital e temos que nos preocupar com segurança deles e dos demais. Estamos a caminho de encontrar uma solução definitiva para estes problemas. O intercâmbio entre as especialidades deve ser facilitado para que o paciente psiquiátrico num hospital geral tenha acesso a neurologia, ginecologia, cardiologia e demais especialidades.


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